Talvez nós sempre tenhamos farmado aura.

July 23, 20264 min read

Talvez nós sempre tenhamos farmado aura

Na mesma página em que publiquei uma reflexão da Mahalo sobre aparência, presença emocional e identidade, uma pequena nota sobre o lançamento de um livro me fez compreender que eu também gostaria de farmar aura.

A expressão, muito utilizada nas redes sociais, significa acumular presença, respeito e admiração. O nome é novo, mas a ideia é antiga. Antes, dizíamos que alguém tinha postura, moral, classe ou simplesmente uma presença diferente.

Foi então que observei melhor a mesma página do jornal.

Um pequeno lançamento escondido na mesma página

Bem perto da minha coluna, quase escondida entre outros textos, havia uma nota discreta:

“Na UFBA — Livro sobre povo iorubá é lançado.”

Talvez eu nem tivesse percebido aquela nota se não fosse a minha coluna. A Mahalo foi justamente o canal que tornou possível essa ligação.

A coluna ocupava mais espaço, enquanto o lançamento do livro aparecia de forma pequena. Mas, em uma verdadeira união de forças, tamanho nunca significa menor importância.

Percebi então que “farmar aura” poderia ser muito mais do que uma expressão sobre imagem e comportamento. Em vez de tratarmos como ridícula essa brincadeira que às vezes provoca um sorriso de vergonha alheia, podemos enxergar nela uma necessidade humana muito antiga.

Talvez nós sempre tenhamos farmado aura. A diferença é que, neste momento da história, muitas vezes nos faltam referências realmente relevantes, e acabamos buscando apenas um elemento visual.

Não canso de imaginar qual desenho eu criaria sobre esse tema.

Reis, impérios, cidades, religiões e povos construíram presença a partir de símbolos ligados a experiências, crenças e acontecimentos reais.

E poucas coisas produzem mais aura do que uma história capaz de atravessar séculos e continuar sendo reconhecida.

Olha o que esses autores conseguiram fazer: reuniram dois países, três idiomas, diferentes universidades, um palácio real e séculos de memória.

Fábio Macêdo Velame, Paula Dias Gomes, Oluwatoyin Sogbesan e Tunji Adejumo não organizaram apenas um livro. Eles reuniram arquitetura, história, espiritualidade e patrimônio cultural dentro de uma mesma obra.

Publicada em português, inglês e iorubá, Oyó: a cidade do patrimônio cultural iorubá — The City of Yoruba Cultural Heritage — Ilu awon asa ile yoruba transforma a história de uma cidade nigeriana em uma ponte internacional de conhecimento.

O trabalho conecta a Universidade Federal da Bahia, por meio do EtniCidades e da Faculdade de Arquitetura, ao Palácio Real de Oyó, à Ajayi Crowther University e à University of Lagos Akoka. Essa cooperação também integra o esforço para que Oyó seja reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

A obra reúne tradições, festivais dos orixás, sistemas de crenças e adivinhação, o calendário iorubá, a sacralização do Alafin e a organização política e religiosa do antigo Reino de Oyó.

É justamente aí que essa história chega diretamente a Salvador.

Oyó não aparece somente como um território distante da Nigéria. Sua relação com Xangô, com os orixás e com tradições que permaneceram vivas nas religiões afro-brasileiras cria uma ligação histórica e cultural profunda com a Bahia.

Como artista, sou suspeito para falar sobre a força de uma imagem. Mas, neste caso, até a grafia do nome de Oluwatoyin exige atenção. Algumas publicações registram “Sagbesan”, enquanto o catálogo oficial da Edufba, o cartaz e diferentes materiais do lançamento utilizam Oluwatoyin Sogbesan, forma adotada neste texto.

Olhe novamente para a dimensão dessa união.

Conseguiu perceber essa aura?

Talvez a geração que aprendeu seja justamente aquela capaz de utilizar a linguagem do seu próprio tempo sem esquecer a profundidade de todos os tempos que vieram antes dela.

Porque existe uma aura que tentamos construir.

Mas existe outra, muito mais profunda.

Aquela que descobrimos que já fazia parte da nossa própria história.

Que energia!
@isaactocinho

Links utilizados

Faculdade de Arquitetura da UFBA — registro do lançamento:

https://arquitetura.ufba.br/pt-br/lancamento-do-livro-oyo-cidade-do-patrimonio-cultural-yoruba

Correio — descrição dos autores e do inventário cultural de Oyó:

https://www.correio24horas.com.br/salvador/livro-sobre-patrimonio-ioruba-e-lancado-em-salvador-com-presenca-do-alafin-de-oyo-0626

O Que Fazer na Bahia — formação e atuação dos pesquisadores:

https://oquefazernabahia.com/2026/06/25/da-terra-de-xango-a-bahia-livro-revela-como-oyo-ajudou-a-moldar-a-cultura-brasileira/

BL News — temas culturais documentados pela obra e registro da cerimônia:

https://www.blenews.com.br/article/livro-oyo-destaca-legado-cultural-ioruba-com-presenca-da-familia-real-de-oyo

APUB — lançamento e descrição detalhada do conteúdo da obra:

https://apub.org.br/lancamento-de-livro-fortalece-reconhecimento-internacional-do-patrimonio-cultural-de-oyo/

Catálogo editorial aberto da obra na plataforma Thoth:

https://thoth.pub/books/8f82fb26-2461-400e-8fae-3b3a0da7256f

Aldeia Nagô — informações sobre o lançamento, o patrimônio imaterial e a relação entre Oyó e o Brasil:

https://aldeianago.com.br/evento/lancamento-do-livro-oyo-a-cidade-do-patrimonio-cultural-ioruba/

Portal Soteropreta — apresentação da obra e identificação dos autores:

https://portalsoteropreta.com.br/2026/06/26/livro-sobre-relacao-oyo-brasil-e-lancado-em-salvador/

Isaac Tocinho

Maestro da Tatuagem

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