Primeira viagem contando o tempo

July 21, 20268 min read

Primeira viagem contando o tempo

Desde quando venho escrevendo sobre datas, o tempo tem se tornado o meu maestro. Hoje começo de um início onde, aos vinte e um anos de idade, faço a minha primeira viagem para tatuar em um evento.

Tudo começou em 2003. Tinha acabado de voltar de um evento de tatuagem em Goiânia, onde fui espectador e tive o primeiro contato real com artistas renomados que só existiam para mim nas bancas de revistas. Técnicas inimagináveis para a nossa realidade soteropolitana tinham acabado de ser vistas e estavam na ânsia de serem aplicadas quando recebi a chamada para a participação do evento que seria o meu o meu maior alicerce na busca de evolução.

Esse caminho, que perdura até hoje, me faz ter Recife como o meu primeiro giro de aprendizado.

Voltar a esse tempo me faz lembrar de um outro Brasil, onde a internet discada ainda tinha que ser desligada para utilizar o telefone de casa e as fotografias ainda precisavam ser reveladas.

Enquanto víamos Ivete Sangalo iniciando a sua carreira solo, o Recife Antigo seguia seu importante processo de revitalização cultural. O Nordeste crescia em diferentes direções, mas a nossa capacidade de encontros continuava preservando uma das nossas maiores riquezas.

Talvez por isso seja tão difícil explicar o que significava uma convenção de tatuagem naquela época. E, nesse ano, ainda seria no Clube Náutico Capibaribe, nos Aflitos, durante um feriado, para trazer ainda mais a energia desse momento que produzia um grande impacto cultural para um cenário que crescia rapidamente ao redor do mundo.

Então, viagem programada em cinco: dois tatuadores, uma pessoa tatuada e dois vendedores. Sairíamos de Fiat Uno, um dia antes do evento. Além do meu grande amigo Jacaré, que iria de avião para apresentarmos a tattoo que eu tinha feito nele.

Me parecia tudo perfeito. Mas todas as histórias possuem caminhos próprios.

Durante a viagem, já na saída da Bahia, paramos em um posto de gasolina onde vimos, no cardápio, uma Coxinha Gigante que, para um viajante de primeira viagem, me parecia o melhor pedido.

Carro reabastecido e repleto de materiais e produtos que estariam à venda, além dos materiais para a execução das tatuagens. Eram caixas gigantes e pesadas, se comparamos a todo o material que possuímos hoje. Mas a gastação de cinco amigos em um carro faziam uma viagem de 806 km ficar leve, com apenes uma intempere que começou a mudar tudo para mim.

Antes mesmo de chegarmos ao destino, o pasteu gigante já mostrava que não deveria ter saído da vitrine do posto, e até quem experimentou também sentia um desconforto. Assim, a viagem passou a ter muito mais paradas do que estava na programação, e já sabíamos a besteira que eu tinha feito.

Então, como não existia buling, a sacanagem era o maior alicerce de amizades masculinas, e a rizada de canto de boca permanece até hoje nesse momento da viagem que já mudava todo o roteiro do meu mapa.

Mesmo parando em farmácias para buscar algum auxílio de emergência, não era clara a uma detecção da gravidade, e as escolhas para melhorar o meu caso não foram as melhores. Não existia Google para uma pesquisa rapidinha.

Ao ponto que fiquei tão mal com as paradas que, ao chegarmos em Recife e entrarmos no hotel, fui direto para o quarto, onde só me hidratava com água e esperava aquilo passar. As brincadeiras continuavam, mas a busca para a minha melhora também. Cuidaram de mim com alimento, remédio e risadinha de canto de boca.

Diante disso, já sabíamos que o primeiro dia do evento, que eu iria participar como profissional do mundo da tatuagem pela primeira vez, acabava de ser perdido. Não consegui nem sair do quarto, mas continuei o cuidado e, no meio da noite, eles já estavam de volta, me passando toda essa movimentação que esperávamos estar todos juntos.

Então chega o segundo dia do evento. Infelizmente, ainda bastante debilitado, mas consegui finalmente chegar no evento.

Era um espaço realmente grandioso naquele tempo. Estandes na parte do térreo e no mezanino, onde o palco de centro, em meia altura, dava uma visão completa do ambiente para todos os jurados, que também estavam sendo protagonistas na criação desse tipo de evento.

Como o nosso grupo já avia chegado no dia anterior, já tinham tido a busca por alguns clientes interessados, onde já faríamos no mesmo dia a arte.

Prontamente, um dos organizadores me procurou interessado em si tatuar. Ele me falou que fazia parte indireta, pois era a empresa dos estandes, mas, ao já estarem montados, ficaria só acompanhando, sem trabalho direto até a finalização do evento.

Então, ficou tudo bem alinhado e, assim, depois de uma ida rapidinha ao banheiro, já comecei a fazer a organização de toda a área de trabalho para tatuar.

O estande já estava pronto desde o dia anterior, com Rodolfo em atuação e a parte de venda de materiais fazendo venda e apresentações de parcerias que já movimentavam tudo ao nosso redor.

Nesse momento, além dos desenhos já impressos, não era comum a minha maneira de trabalho, onde desenhava na hora o desenho para o cliente. Então, mesmo sem ter começado a tatuar, eu já estar com o cliente fazendo um esboço de caneta a mão livre também foi prático para estar finalmente em ação com a equipe.

Tudo tinha finalmente entrado no andamento, mas desenvolver um projeto a mão livre para um participante, mesmo indiretamente da organização do evento, que gostaria de fazer um dragão grande no braço, não permitiria saídas para outras atividades no momento em que estava comigo.

A construção de um esboço a mão livre demora algumas horas e, nesse andamento, começa mais uma etapa de descontrole para a apresentação de uma tatuagem bem feita.

Então, no final da tarde, comecei a tatuagem. Mas, por diversas vezes, ele ainda precisava interromper a sessão para resolver questões relacionadas à convenção. Aquilo tornou um trabalho já difícil ainda mais complexo.

Não terminamos no sábado, mas, vindo dele mesmo, nos prometemos continuar com mais afinco e organização no dia seguinte desse evento de três dias.

O último dia chegou antes que eu pudesse entregar tudo aquilo que havia imaginado e, como falei no inicio, ainda tinha meu amigo parceiro que iria de Salvador para Recife nesse domingo para apresentar um trabalho que já avia feito nele em Salvador.

Então, com todos essas andamentos, ainda fui buscar ele no aeroporto, chegar no hotel e estar em atividade no evento com uma tattoo que nem tinha começado de verdade.

Essa conta não batia, mas não desisti e continuei.

Já estava em 90% de melhora com o corpo, mas o tempo realmente não espera. O dia andou. Os trabalhos foram apesentados. O meu trabalho a mão livre foi terrível para o que já era capaz de fazer.

Estava realmente decepcionado.

Mas não estava só.

O trabalho feito e apresentado por Rodolfo foi premiado, os contatos e vendas da equipe foram efetuados e esse grupo terminava aquele momento glorioso no primeiro evento que eu participava, já me ensinando tudo sobre evolução.

E, nesse momento onde eu era o meu gerador de bolink interno, organizamos os andamentos para desmontar o estande e saímos para o carro, quando acontece a terceira e ultima etapa do descontrole.

Era um estacionamento a céu aberto. As portas do evento não eram tão grandes e só avia uma saída de carro, onde aparece um homem armado, com um revolver na cintura e um revolver apontada na nossa direção, e pregunta:

-Vai querer continuar assim? Você não é o bom macho?

Nesse momento, a preocupação de todos da equipe estava longe de buscar motivos. Foi muito instintiva a auto preservação chegar com o mesmo peso do cuidado um com o outro e, em poucos segundos, já estávamos no chão de barro, atrás das únicas barreiras, que eram os carros nessa terra.

E, tão rápido quanto, já conseguimos entender que o homem chamado estava logo atrás da nossa saída. Ele não recuou, e aqueles segundos pareciam não ter fim.

Mas teve, sem fatalidades.

E, assim, nos levantamos, tirando aquela poeira que tinha nos sujado. Nos olhamos sem palavras e, depois de respirar, continuamos o nosso caminho.

Eu já tinha mudado desde a o primeiro dia. E, ao perceber, no segundo dia, já fui colocado em outro destino de aprendizado. Ao sentir e aceitar, a terceira mudança, fiz o desenho da minha vida ficar completo.

O meu desenho de mundo faz a construção acontecer com os seus, e só assim realmente estamos vivos.

A busca por essas melhoras é diária, continua e repetitiva. Essa é a única maneira do acaso se tornar um imprevisto já esperado que nos traz mais entendimento.

Essa história não acaba aqui.

Exatamente um ano depois, em Recife, apliquei uma nova estrutura de produção.

Voltei para Salvador sem prêmio algum de uma convenção que cheguei atrasado e que, assim, nem sabia que já estava escrevendo a minha própria história.

E é dessa maneira que me comunico com um grande esboço do meu desenho que o tempo me apresentou.

Que energia!
Isaac Tocinho

Isaac Tocinho

Maestro da Tatuagem

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