A própria direção.
A própria direção.

Durante a Tattoo Week São Paulo 2024 eu tinha preparado uma tatuagem de São Miguel Arcanjo.
O desenho estava pronto. A ideia estava pronta. Mas a vida resolveu mostrar que algumas histórias começam antes da primeira linha.
O cliente marcado não apareceu.
Quem trabalha com arte há muitos anos aprende uma coisa. Nem tudo que acontece é atraso. Algumas situações apenas estão procurando o momento certo para acontecer.
Foi necessário encontrar outra pessoa para assumir aquele projeto e realmente foi rápido. Mas quando tudo parecia resolvido, surgiu mais um desafio. Durante a execução, o cliente teve uma queda de pressão e precisou parar.
Ali eu comecei a pensar sobre a energia daquela imagem.
São Miguel costuma ser lembrado pela espada, pela armadura e pela batalha contra o mal. Mas existe uma característica menos comentada na sua representação. A firmeza.
A capacidade de continuar ocupando seu lugar mesmo quando o ambiente ao redor se transforma.
Talvez por ter crescido em Salvador eu enxergue essas coisas de uma forma diferente.
Nossa cidade sempre me ensinou que energia não é apenas uma palavra. É presença, caminho e leitura do momento. É entender quando insistir, quando esperar e quando seguir em frente.
Mas nunca desistir.
Enquanto a tatuagem avançava, comecei a perceber que o desenho estava contando exatamente a história daquele dia.
Nada aconteceu como estava planejado.
E ainda assim tudo aconteceu.
Existe uma diferença muito grande entre força e violência.
A violência tenta impor, mas a força permanece.
São Miguel atravessou séculos porque sua imagem nunca representou apenas combate. Representou direção. Representou a capacidade de não perder o eixo quando surgem obstáculos entre você e aquilo que precisa ser feito.
Celebrado em 29 de setembro pela tradição cristã, São Miguel continua sendo uma das figuras espirituais mais reconhecidas do mundo, com devoção presente em países como Brasil, Itália, França, Portugal e Espanha.
No final da sessão, a tatuagem ficou pronta.
Mas a lembrança mais forte não foi a arte concluída.
Foi perceber que algumas energias chegam antes da obra.
Recentemente, em setembro de 2025, publicações do Vaticano voltaram a destacar São Miguel como símbolo de proteção, direção e resistência diante dos desafios do mundo contemporâneo. Em tempos de conflitos internacionais, polarizações políticas e excesso de ruído emocional, talvez essa seja justamente a característica que mantém sua imagem tão atual.
Não é sobre vencer uma batalha.
É sobre não perder a própria direção enquanto ela acontece.
Que energia!
@isaactocinho